Tempo

“Arte pertence a todos e a ninguém. Arte pertence a um tempo e a tempo nenhum. Arte pertence aos que a criam e aos que a apreciam. (...) Arte é o sussurro da história, ouvido acima do ruído do tempo. Arte não existe só pela arte: existe pelas pessoas.”

O Ruído do Tempo - Julian Barnes

A edição deste ano do Fantasporto contou, pela segunda vez, com a exibição de “A Serbian Film”, um filme censurado em vários países pelas cenas brutais, e violentas, de uma pornografia a roçar o perturbador. Não vi o filme, nem tenciono ver, mas li artigos do realizador que justificou o seu trabalho dizendo estar a fazer uma crítica à sociedade sérvia. Confesso que não percebi a ligação, nem penso que a arte justifique todas as atrocidades. Não concordo com a exploração gratuita da violência, nem sequer com a arte ou a metáfora como contexto e justificativa. "A arte não existe só pela arte, de facto, existe pelas pessoas.” A mesma lógica de pensamento foi seguida pelos protestos à vitória de Polanski nos Césares; como pode a arte de um suposto violador ser premiada? Devemos banir toda a arte que não respeite os direitos humanos e todos os artistas que não os respeitem? A obra de Polanski poderá perdurar sem qualquer ligação à sua pessoa e ao que (supostamente) fez, numa espécie de branqueamento para lá "do ruído do tempo”, algo que “A Serbian Film” continuará a não ter, dada a sua natureza perturbadora e violenta.

“Pessoas são o que são pelo que fazem. Não pelo que dizem.”

Um Homem chamado Ove - Frederik Bauman

Uma daquelas frases cliché tirada de um livro que poderia ser cliché. Um daqueles pensamentos que nos assola numa das muitas crises de idade que temos ao longo da vida. Somos o que fazemos, os nossos valores, não somos o que dizemos que queremos ser. Mas pode a alma humana redimir-se? Pode a arte redimir as nossas acções? Não li Expiação (Atonement no original), mas vi o filme (um daqueles que revejo com frequência), uma história ficcional sobre o poder da narrativa e das palavras como forma de redenção/expiação.

“O que acontece com as ilusões humanas quando são destruídas, é que são destruídas. Foi um longo e cansativo processo, como uma dor de dentes que chega à alma. Pode tirar-se um dente, e a dor desaparece. As ilusões, contudo, quando morrem, continuam a apodrecer dentro de nós. Não podemos fugir ao seu sabor e cheiro. Carregamo-las connosco todo o tempo.”

O Ruído do Tempo - Julian Barnes

À semelhança das palavras, as ilusões também podem ficar ad eternum nas nossas almas. A gestão das expectativas é um dos maiores desafios do ser social. Má comunicação, desacatos, zangas incontornáveis, tudo à conta das ilusões e expectativas. Da forma como vemos o que queremos ver em vez do que está realmente à nossa frente.

“Às vezes é difícil explicar por que razão alguns homens de repente fazem as coisas que fazem. E Ove soubera provavelmente desde o início o que precisava de fazer, quem precisava de ajudar, antes de poder morrer. Mas somos sempre optimistas no que ao tempo diz respeito; pensamos sempre que teremos tempo suficiente para fazer coisas com as outras pessoas. E tempo para lhes dizer coisas.”

Um Homem chamado Ove - Frederik Bauman

O tempo. A velhice. O sentido da vida. O impacto que temos nos outros e que os outros têm em nós. A solidão. As nossas decisões. O que nos faz avançar. Os arrependimentos. A forma como aceitamos o que não podemos controlar ou mudar. São tudo coisas em que não pensava muito e, que de repente, se tornaram mais importantes. Talvez sejam as reflexões dos 30, mas Bauman conseguiu neste livro que foi ao mesmo tempo, irónico, divertido, e triste ajudou a relativizar alguns pensamentos que giraram na minha cabeça em modo contínuo numa certa fase da minha vida.

E, tal como Ove percebeu, entendi também que o tempo só tem a importância que lhe quisermos dar, e que, na maioria das vezes, é apenas uma desculpa, pois, no fundo, acabamos por saber exactamente o que temos de fazer.

*Foto de Andrik Langfield - Unsplash