Recomeços


"E se?" é uma das grandes questões que nos colocamos, especialmente nos momentos de viragem. Nessas alturas, pensamos no que podíamos ter feito de diferente em vários momentos da nossa vida e como estaríamos agora se B tivesse acontecido em vez de A.


Normalmente, o “e se?” toma maior proporção quando não estamos felizes com algo (ou com tudo). Ora, a felicidade é um estado de espírito, tal como a tristeza, ambos igualmente relevantes para a nossa vida, mas também sensações com duração limitada. Como Emily Esfahani Smith nos conta na sua palestra TED, “There’s more to life than being happy”.
Smith fala em quatro pilares que são essenciais para uma vida com impacto:

  • Pertença — pertencer a uma comunidade, um grupo, uma tribo.

  • Propósito — ter um objectivo na vida, qualquer que ele seja.

  • Transcendência — sentir-se ligado a uma realidade superior, o que não tem de ser necessariamente através da crença num Deus. Smith fala, por exemplo, na arte ou na escrita.

  • Contar histórias — interagir com os outros através de histórias é uma parte importante do que é ser humano.

E o que tem isto a ver com recomeços? Na verdade, tudo.

"Às vezes, tens de queimar tudo e começar de novo. Após ter sido queimado, o solo fica mais rico e novas coisas podem crescer. As pessoas também são assim. Recomeçam. Encontram um caminho."

Celeste Ng, Pequenos Fogos em Todo o Lado

Pequenos Fogos em Todo o Lado da Celeste Ng (lê-se Ing) não é um dos livros da minha vida, mas a história e o seu propósito fizeram todo o sentido para mim. O livro começa com a família Richardson (pai, mãe e os seus três filhos) no relvado, a verem a sua casa desaparecer nas chamas. Todos acham que a culpada foi a filha mais nova, Izzy. No entanto, este não é uma história sobre a Izzy ou sobre o incêndio. É uma história sobre Elena, Mr. Richardson, Moody, Pearl, Lexy, e Izzy, e ainda sobre Mia e Pearl, as arrendatárias criativas e nómadas que se mudam para o subúrbio de Shaker Heights. E sobre os McCullough que querem adoptar uma bebé. E sobre Babe, a mãe dessa bebé.

O mais interessante neste livro é que todos os personagens são, também, narradores e, por isso, conseguimos perceber cada acontecimento de pontos de vista diferentes, sendo mais difícil julgá-los.

"A maioria das vezes, as pessoas merecem mais do que uma oportunidade. Todos fazemos coisas de que nos arrependemos de vez em quando. Simplesmente, temos de carregá-las connosco."

Todas as personagens estão num caminho de mudança e de recomeço. E reflectem muito sobre o seu propósito, sobre a pertença, e sobre os "e ses", motivo pelo qual me identifiquei tanto com este livro e o escolhi para falar sobre novos inícios.

Ler sobre a vida regrada em Shaker Heights (ao ponto das casas terem restrições na palete de cores) e sobre as diferentes motivações de cada personagem deixou-me a pensar sobre a vida, os nossos planos, e em como não podemos seguir uma fórmula nem pensar demais em tudo o que não podemos controlar.

"Uma seguiu as regras, a outra não. Mas o problema com as regras, reflectiu, é que implicam uma forma correcta e uma forma incorrecta de fazer as coisas. Quando, de facto, a maior parte das vezes há simplesmente formas, nenhuma verdadeiramente certa ou verdadeiramente errada, e nada para nos dizer em que lado da linha estamos."

Os Encontros Improváveis são uma resposta às minhas divagações sobre esses diferentes lados da linha. Uma newsletter com histórias, livros, contos, filmes, e tudo o mais que possa fazer sentido no tema dessa edição.

Outras sugestões:

“4, 3, 2, 1” de Paul Auster. O escritor americano conta a história de Archie Ferguson em quatro versões diferentes, quatro caminhos que a sua vida tomou, dependendo das suas acções.

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

— Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

*Foto de Jukan Tateisi - Unsplash