Palavras

"Palavras. Não há maneira de as esquecer. Não te deixam estar verdadeiramente sozinha. Praga de bichos. Deveria abrir as janelas de par em par para que as palavras saiam para a rua, os lamentos, as velhas conversas tristes presas entre as paredes do apartamento desabitado."

Fernando Aramburu - Pátria

Sempre gostei de palavras, de escolher as que melhor se adequam à conversa, de simplificar o complexo ou de complicar o simples; sempre imaginei conversas na minha cabeça, onde tenho um discurso fluido e digo exactamente o que queria dizer, num tom adequado que deixa o meu interlocutor impressionado. A verdade é que, muitas vezes, não sou compreendida, não compreendo, e percebo o que devia ter dito momentos depois da torrente de palavras ter atingido a outra pessoa.

As palavras podem ser cruéis e ficar connosco muito tempo depois do assunto ter sido fechado, como uma dor persistente que nos visita no momento mais inoportuno. Também podem ser um bálsamo e iluminar o dia duma completa estranha. A maioria das vezes, ficam por dizer, presas num qualquer limbo. E quando arranjamos a coragem para as libertar, já não têm qualquer significado nem nos trazem qualquer paz.

Pátria de Aramburu, um dos melhores livros que li em 2019, e que será adaptado a série da HBO, em Maio de 2020, leva-nos por muitos caminhos. Fala-nos da ETA, duma Espanha dividida, dos terroristas e das vítimas, de perdão e memória, das relações humanas. Mas, no fundo, todas as personagens passam toda a história à espera de uma palavra.

Em cada caso é uma palavra distinta, mas acreditam que será a diferença entre ficar e avançar, entre a paz e o inferno de viver uma meia-vida cheia de coisas que ficaram por dizer.

“Lê tudo o que possas. Reúne cultura. Quanta mais, melhor. Para que não caias no buraco no qual caem muitos neste país.“

Fernando Aramburu - Pátria

Li em português, não no original, mas a tradução mantém várias expressões e palavras em euskera. A língua e a cultura euskera são também um dos pontos fulcrais da história. A importância da cultura para um povo, da sua língua, das suas palavras e expressões, de como temos de aprender sobre a nossa história, e manter o espírito crítico. Ler, escrever, pensar sempre foram indissociáveis; um país onde não se lê e se escreve sempre o mesmo, onde não há opiniões contraditórias que permitam um debate inteligente é um país que cai para um buraco.

“Escreve sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a falta de memória e o esquecimento pelos que querem inventar uma história ao serviço do seu projecto e convicções totalitárias."

Fernando Aramburu - Pátria

Há sempre quem queira reescrever a História. Há muitos que o conseguem. Na era da (des)informação, onde palavras e conceitos são constantemente deturpados (provavelmente, sempre foram, e, provavelmente, continuarão a ser), urge começar uma redefinição, uma transformação.

A tecnologia evolui, as ideias avançam, mas a linguagem política continua a mesma. Porquê usar os mesmos conceitos datados que afastam os cidadãos da política? (obviamente não o único motivo). O ódio continua presente e continuará, porque faz parte da natureza humana. Haverá sempre os que lutam pelo esquecimento e por reescrever o passado (lembro-me sempre do Vendedor de Passados do Agualusa), mas também haverá sempre quem insista em “escrever sem ódio contra a linguagem do ódio”.

"Pedir perdão exige mais valentia do que disparar uma arma, do que accionar uma bomba.“

Fernando Aramburu - Pátria

Não sei qual é a coragem necessária para disparar uma arma ou accionar uma bomba e espero nunca ter de saber. Sei o que significa pedir perdão e o difícil que é ter de o fazer. Sei também que há pouca humildade no discurso político actual. Poucos pedem perdão, assumem os erros; menos ainda se preocupam em redefinir o discurso, alcançar mais pessoas e focar-se no pensamento crítico.

Pode um país que não lê, não escreve, não discute nem pensa, e no qual as palavras são cada vez mais deturpadas e cada vez menos significativas, sair do buraco?

"- Gostas de desenhar? - Muito. - Então aprenderás muito rápido a escrever, porque escrever é como desenhar, mas com letras."

Dor e Glória - Almodóvar

Numa era digital, sou das que gosta de desenhar letras, escrever com calma todas as palavras. Durante todo o ano passado, deixei-as acumuladas com medo de falhar, e de me expôr. Mas as palavras “não te deixam verdadeiramente sozinha” e acabam sempre por encontrar um caminho.

*Foto de Patrick Tomasso - Unsplash