Memória

"A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável, belo ou terrível, e lá ficará para sempre."

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados


Félix Ventura vende passados. Novas memórias para quem delas precisar. Normalmente, estamos mais preocupados em moldar o futuro do que o passado, procuramos serviços que nos permitam melhorar a nossa condição actual, não a prévia. No entanto, é mesmo isso que Félix faz. Acompanhado por algumas personagens surpreendentes, na sua casa em Luanda, Félix cria novas histórias para os seus clientes. Com ele, o passado pode ser mudado de acordo com as necessidades.

"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. São coisas que ocorrem diantes dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza se realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já me falha a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu."


Mesmo sem a intervenção de Ventura, o passado não é exactamente estável. A nossa memória não é totalmente fiável, especialmente quando recordamos eventos mais antigos. Por vezes, recordamos só um sabor, um cheiro, uma frase, misturando tudo o resto, realidade e sonho, memórias deste ou daquele evento. Já dei por mim a lembrar-me vividamente de algo que só li num livro e não vivi. E a repetir tantas vezes uma recordação real que sinto que já não é verdade, que nunca aconteceu. Há muitas pessoas que mantêm um diário, como forma de guardarem as memórias. Eu também o faço. Mas a memória nunca é assim tão factual: lembrar é também julgar, pois já não nos lembramos do momento puro, só do momento cheio de emoções.

"A memória menos contaminada é a que existe no cérebro de um paciente com amnésia - no cérebro de alguém que não a consegue contaminar ao lembrar-se dela. Com cada lembrança, a memória degrada-se."

Sarah Manguso, num artigo da Brain Pickings


Ventura criava novos passados não só para pessoas que queriam alcançar um novo estatuto na sociedade angolana, livre de pesos anteriores, mas também para quem queria apagar a sua dor. É exactamente isso que fez Clementine, interpretada por Kate Winslet, no filme "O Despertar da Mente" de Michel Gondry. Ela apaga da sua memória Joel e a lembrança da relação de ambos. Magoado, Joel acaba por fazer o mesmo.

"A realidade é dolorosa e imperfeita, dizia-me, é essa a sua natureza e, por isso, a distinguimos dos sonhos. Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho."

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados


A realidade fere, como vemos na história de Joel e de Clementine. Nada é simples (nem mesmo apagar uma memória) e nada é absoluto. Nem este livro nem este filme trazem uma resposta, mas ajudaram-me a pensar em como lidar melhor com o passado.

"Não crescemos absolutamente, cronologicamente. Crescemos numa dimensão, e não noutra, de forma desigual. Crescemos parcialmente. Somos relativos. Somos maduros num aspecto, infantis noutro. O passado, o presente e o futuro misturam-se e puxam-nos para trás, para a frente ou fixam-nos no presente. Somos feitos de camadas, células e constelações."

Anaïs Nin


É interessante ver que tantas artistas de meios diferentes dizem mais ou menos a mesma coisa: a memória é dispersa, é traiçoeira, é tão importante que nos damos ao trabalho de a querer modificar para apaziguar a dor ou para termos coragem de seguir outros caminhos. Acho que isso se deve à nossa incapacidade (de uns mais do que outros) de aceitar o que passou e de viver no momento.

Eu estou finalmente em paz. Não receio nada. Não anseio por nada. Acho que a isto se pode chamar felicidade.

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados

*Foto de Laura Fuhrman - Unsplash

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