Medo

(do latim metus)

Estado emocional resultante da consciência do perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. = FOBIA, PAVOR, TERROR (definição do Priberam)

Tem-se falado muito em medo. Medo do resultado das eleições no Brasil. Medo dos -ismos. Medo do clima de falsas informações. Quando pensamos em medo, em terror, pensamos, também, na violência extremista. Lembramo-nos de terroristas e de atentados, sem saber bem o que faríamos se algo semelhante nos acontecesse.

"O terror é uma forma de planeamento urbano."

Karan Mahajan, A Associação das Pequenas Bombas

Karan Mahajan escreveu exactamente sobre isso: nesta história romanceada, mas baseada em factos bem reais, escreve como um pequeno atentado num mercado de Nova Deli afectou todos os envolvidos: as vítimas, os seus pais, os terroristas. Na verdade, a única coisa que parece não ter mudado particularmente foi o mercado, que se modernizou, mas permanece mais ou menos como era.

"Um bom atentado bombista começa em todo o lado ao mesmo tempo."

Para além da originalidade da abordagem, onde podemos ler os diferentes pontos de vista das personagens (semelhante ao livro escolhido na newsletter passada), sabemos também o que se passou antes, durante e depois da explosão. Percebemos que um atentado começa, realmente, em todo o lado ao mesmo tempo e compreender o contexto é essencial.

“E sabes o que acontece quando a bomba dispara? A verdade sobre as pessoas vem ao de cima. Os homens deixam as crianças e começam a correr. Os lojistas empurram as mulheres e tentam salvar o dinheiro da caixa. As pessoas entram e pilham as lojas. Uma explosão revela a verdade sobre os lugares.”

Uma explosão revela a verdade sobre os lugares e sobre as pessoas. O medo revela a verdade sobre os lugares e sobre as pessoas. O livro não nos dá respostas sobre o medo, mas informa-nos sobre a Índia, o Paquistão, a Caxemira, os atentados, e a violência. Estar informado é uma boa solução contra o medo. As ameaças não desaparecem, mas podemos começar a ter discussões diferentes. Deixar de viver na nossa bolha informativa e começar a perceber o que os outros pensam e querem e porque é que políticos como Bolsonaro e Trump ganham. Perceber o que se passa na Índia e no Paquistão. Perceber os motivos do movimento "Black Lives Matter". Não resolve os -ismos nem o medo, mas certamente ajuda a diminuí-los.

Outras sugestões:

BlacKkKlansman, filme de Spike Lee, (em exibição nos cinemas) sobre a história de Ron Stallworth, um polícia negro americano que se conseguiu infiltrar no Ku Klux Kan. Um filme irónico, baseado em factos reais e uma resposta ao massacre de Charlottesville, de 2017.

"É que a industria da desgraça pro governo é um bom negócio

Vende mais remédio, vende mais consórcio

Vende até a mãe, dependendo do negócio

(...)

Olhe, essa é a máquina de matar pobre

No Brasil, quem tem opinião, morre"

Criolo, Boca de Lobo

*Foto de Julius Drost - Unsplash